Porque é que a minha dor na mandíbula é tratada sempre como a mesma coisa?
A palavra "DTM" mete no mesmo saco coisas que se comportam de forma diferente. Uma dor pode nascer dentro da própria articulação da mandíbula — daquela peça que abre e fecha à frente do ouvido. Outra pode nascer do músculo que aperta, range e carrega ao longo do dia. Por fora parecem a mesma queixa: dói perto do ouvido, custa mastigar. Mas comportam-se de maneira diferente, e por isso a leitura à cabeça importa. Quem escolhe e faz essa distinção é o médico dentista, com quem este método trabalha ao lado, não por baixo. O que aqui fazemos é ajudá-lo a chegar lá com a história meio-lida e as perguntas certas.
Porque é que dores diferentes recebem sempre o mesmo nome?
Há uma palavra que anda colada a quase todas as queixas da mandíbula: "DTM". É uma mala grande. Cabe lá muita coisa.
E o problema é esse. Debaixo dessa palavra vivem coisas que não são iguais. Que não se comportam de igual maneira. Que não pedem a mesma atenção.
Imagine duas pessoas. Ambas dizem a mesma frase: "dói-me perto do ouvido e custa-me mastigar." Por fora, a queixa é a mesma. Por dentro, pode estar a acontecer algo bem diferente numa e noutra.
Este texto é sobre essa diferença. E sobre porque é que notá-la logo à cabeça muda a conversa toda.
O que é uma dor que nasce dentro da articulação?
À frente do ouvido, de cada lado, tem uma pequena articulação. É a peça que abre e fecha a boca. Que desliza quando fala, bocejar, mastiga.
Às vezes a dor nasce ali dentro. Nessa peça. É o que se chama, em linguagem técnica, uma perturbação dentro da própria articulação — dentro da cápsula que a envolve.
Como se costuma notar? Muitas vezes há um estalido. Um click quando abre ou fecha. Por vezes a boca engata, ou não abre até ao fim. A dor tende a estar mesmo no ponto da articulação, colada ao movimento.
Há um dado curioso num estudo grande, com centenas de pessoas, que vale a pena guardar. Nas pessoas cuja dor era mesmo desta natureza — de dentro da articulação — o músculo à volta era o que reagia menos ao toque. Menos sensível ao apalpar, de todos os grupos. E a ansiedade e a tristeza pesada apareciam menos aqui do que nos outros casos.
Ou seja: quando a dor é mesmo articular e "pura", o músculo e o estado emocional pesam menos na história. É um retrato mais "de peça" e menos "de estado".
O que é uma dor que nasce do músculo carregado?
Agora o outro lado. A dor que não nasce dentro da peça — nasce do músculo que a move.
O músculo aperta. Range à noite. Contrai-se e mantém-se contraído horas a fio. Ao fim do dia, está carregado. E dói. Não porque haja um osso fora do sítio — mas porque a carga se foi acumulando.
Neste caso, o retrato é diferente. Nesse mesmo estudo grande, foi aqui que o músculo reagiu mais ao toque. E foi aqui — e num outro tipo de dor da cara — que a ansiedade e a tristeza pesada apareceram com mais força.
Isto é importante e é honesto dizê-lo: o estado emocional aparece muito ligado a esta dor muscular. No mesmo estudo, tanto a ansiedade como a tristeza pesada apareciam, cada uma por si, a aumentar a probabilidade de o músculo estar mais sensível. Isto não quer dizer "a dor é da sua cabeça". Quer dizer que o músculo carregado e o estado andam de mãos dadas — a seta aponta nos dois sentidos.
Repare no que isto não é: não é dizer que uma coisa causa a outra, nem que se "resolve o nervosismo e o resto compõe-se sozinho". É dizer que várias coisas se somam. É um filme, não uma fotografia.
Porque é que confundi-las tem consequências?
Se por fora parecem a mesma queixa, porque é que interessa separá-las?
Porque se comportam de maneira diferente. O ponto onde dói é diferente. O que agrava é diferente. E o caminho de leitura é diferente.
Ler uma dor articular como se fosse muscular — ou o contrário — é perseguir a peça errada. E é fácil cair nisso quando tudo se chama "DTM" e se trata em bloco.
Há aqui um pormenor de história que interessa. A mesma palavra "DTM" já foi apontada, há anos, como suspeita de estar por trás de dores de cabeça de tensão. Depois, numa revisão internacional dessas classificações, a palavra até foi retirada desse papel de culpada. Ou seja: nem os próprios que arrumam estes nomes tratam a "DTM" como um bloco simples e fechado.
E o pescoço e o estado, entram nesta conversa?
Entram. A dor de cabeça de tensão — aquela que aperta como uma faixa — anda muito ligada à dor do músculo da cara e do pescoço. Aparecem juntas com frequência.
E há um fio que atravessa tudo: o hábito de apertar, ranger, manter o músculo em tensão. Esse hábito, mais o estado emocional por cima, aparecem como pano de fundo comum de várias destas queixas.
Isto não faz do estado o "comandante" de nada. Faz dele um dos jogadores. Um contribuinte que se soma aos outros, sob desafio. Continua a ser uma rede sem centro — não uma corrente com um chefe no topo.
Então o que é que eu faço com isto?
Não saia daqui a tentar autodiagnosticar-se. Sai daqui bem-lido — que é diferente.
Guarde três coisas. Uma: a sua dor pode nascer de dentro da articulação ou do músculo carregado, e essas duas histórias comportam-se de forma diferente. Duas: distingui-las logo à cabeça importa. Três: essa distinção — o diagnóstico da mandíbula, a decisão sobre o que fazer — é do médico dentista. É ele quem lê e decide o que se passa na articulação. Este método trabalha ao lado dele, de par para par, não por baixo.
O que aqui fazemos é uma coisa mais modesta e mais útil do que parece: ajudá-lo a chegar à consulta com a história meio-contada. A saber olhar para o estalido, para o ponto onde dói, para o hábito de apertar, para o estado dos últimos meses. E a levar as perguntas certas em vez de uma palavra-mala.
Um aviso honesto para fechar. Se a mandíbula tranca, se não abre até ao fim, se o estalido engata, se a dor é progressiva ou o acorda de noite — isso vai direto ao médico dentista, sem demora. Não é para gerir em casa.
Perguntas frequentes
Como sei se a minha dor vem de dentro da articulação ou do músculo?
Não se autodiagnostica em casa. Mas há pistas úteis de guardar: dor colada a um estalido ou a boca que engata aponta mais para a articulação; dor difusa, com o músculo dorido de apertar e ranger ao fim do dia, aponta mais para o músculo. Quem confirma e decide é o médico dentista.
Se o estado emocional pesa na dor, então é tudo psicológico?
Não. O estado emocional aparece muito ligado à dor do músculo carregado, mas não é o dono da história. É um jogador entre vários que se somam. Dizer que 'é da sua cabeça' seria colapsar o problema numa causa única — exatamente o erro que queremos evitar.
A 'DTM' não é um diagnóstico fechado?
É uma palavra grande que mete várias coisas no mesmo saco. Debaixo dela vivem queixas que se comportam de forma diferente. Por isso é que a leitura à cabeça importa, e por isso essa leitura é do médico dentista.
Referências
- Mongini F. Temporomandibular Disorders and Tension-type Headache. Current Pain and Headache Reports 2007;11(6):465-470. doi:10.1007/s11916-007-0235-z (PMID: 18173983)
