Porque é que a minha dor na mandíbula não passa se já tratei o que a começou

A dor na mandíbula que dura não tem um único culpado, nem sequer ao longo do tempo. Um estudo que seguiu quase 2.737 pessoas sem queixas mostrou que os fatores que aparecem "em cheio" em quem já tem dor há anos — mais sensibilidade à dor, sistema de alerta desregulado — quase não preveem quem vai começar a sentir dor. Preveem só de forma modesta (aumentos de 12 a 24%). Ou seja: o que arranca a dor e o que a mantém agarrada parecem ser coisas diferentes. Ler o filme presente vale mais do que caçar a causa única do primeiro dia.

Porque é que a dor não passa se já tratei o que a começou?

É uma das frases mais cansadas que se ouve: "já fiz de tudo e continua igual — o que é que falta?".

Por trás dela mora uma ideia que parece óbvia. A ideia de que, se descobrirmos o que começou a dor, e o desfizermos, a dor tem de ir embora. É lógico. E é aqui que a lógica engana.

Porque há um estudo grande — dos maiores feitos sobre dor na mandíbula — que separou duas perguntas que quase toda a gente junta numa só: o que faz a dor começar e o que faz a dor durar. E o que encontrou foi que não são a mesma coisa.

Como é que se estuda uma coisa dessas?

Quase todos os estudos sobre dor na mandíbula fazem o mesmo: pegam em quem já tem dor há anos e comparam com quem não tem. É útil, mas tem um buraco. Quando encontram uma diferença — por exemplo, que quem tem dor é mais sensível à dor em geral — não conseguem dizer se essa sensibilidade veio antes (e ajudou a começar) ou se apareceu depois, por causa de anos a doer.

É como chegar a um incêndio já lá vai fumo por todo o lado e tentar adivinhar, só pelo cheiro, onde começou.

Este estudo fez ao contrário. Pegou em 2.737 pessoas sem qualquer dor na mandíbula, mediu-lhes um monte de coisas antes de qualquer queixa, e depois seguiu-as durante anos — perguntando de três em três meses se algo tinha mudado. Ao fim do caminho, 260 dessas pessoas desenvolveram dor na mandíbula pela primeira vez.

A pergunta ganhou finalmente resposta possível: das coisas que mediram antes, quais é que realmente anunciavam quem ia começar a ter dor?

E o que é que a sensibilidade à dor previu?

Pouco. E de forma seletiva.

Quem já tem dor crónica na mandíbula costuma ser mais sensível à dor até em sítios do corpo que não doem nada — no braço, na mão. Nos estudos que comparam doentes com saudáveis, essa diferença aparece em cheio, gritante.

Mas quando se olha para quem ainda não tinha dor e se pergunta "esta sensibilidade prevê quem vai começar?", o efeito encolhe até quase desaparecer. Das dezenas de medidas testadas, só uma parte previu alguma coisa — e mesmo essas com aumentos pequenos, na ordem dos 12 a 24%. Nada que se pareça com o retrato dramático de quem já sofre há anos.

Repara na diferença. Em cheio em quem já tem dor. Modesto a anunciar quem a vai ter. Se fosse a mesma força a começar e a manter, os dois números seriam parecidos. Não são.

Então o que é que isto quer dizer para quem já tem dor?

Diz uma coisa incómoda e libertadora ao mesmo tempo: o que arranca a dor e o que a agarra ao longo dos anos parecem ser processos diferentes.

Provavelmente há uma pequena predisposição que ajuda a começar. E depois há a própria dor instalada que, com o tempo, muda o corpo — torna-o mais sensível, mantém o sistema de alerta ligado. A parte grande do problema, nos casos que duram, não é a fagulha inicial. É o que se foi somando depois.

Isto explica por que razão a caça ao culpado único do primeiro dia falha tantas vezes. Não é só que o corpo não tem um comandante que manda nos outros. É que nem sequer há um único culpado no tempo — o do início não é o mesmo que o de agora.

E o sistema de alerta do corpo — não prometia ser a chave?

Havia grande esperança de que o chamado sistema autonómico — a parte que controla o coração acelerar, a tensão subir, o corpo entrar em modo alerta — fosse um bom prenúncio. Em quem já tem dor crónica, ele aparece desregulado.

Neste estudo, a prever quem ia começar a ter dor? Quase nada. Só uma medida (o coração um pouco mais acelerado em repouso) deu um sinal fraquinho — e quando se apertaram bem as contas, desapareceu.

Outra vez o mesmo padrão. Aquilo que salta à vista em quem já sofre não é aquilo que anuncia quem vai sofrer.

Houve algum sinal mais forte?

Sim, e é curioso. O único sinal claramente mais forte não foi uma medida solta — foi uma combinação. Em pessoas que ao início sentiam pouca dor a um primeiro estímulo, mas cujo corpo depois ia acumulando a dor com a repetição (como se o volume subisse sozinho), o risco de vir a ter dor na mandíbula subia bastante mais.

Ou seja: não foi "quem é sensível" que se destacou. Foi um padrão de como o corpo lê e soma um estímulo ao longo do tempo. Um filme, não uma fotografia. Um traço no funcionamento, não uma peça torta à espera de ser endireitada.

E é honesto dizer o resto: mesmo esse sinal, e todos os outros, não passaram no crivo estatístico mais exigente. O terreno é real, mas é mole. Isto aponta caminhos plausíveis — não fecha nada como demonstrado. E, importante, o estudo mediu quem começa a ter dor, não especificamente quem a mantém durante anos. A parte de "o que faz durar" é lida por dedução, não medida diretamente.

O que fazer com isto, na prática?

Tirar o peso de cima da pergunta "qual foi a causa?". Se já tentaste desfazer o que julgavas ser o culpado do início e a dor continua, não é sinal de que falhaste — é sinal de que estavas a perseguir a coisa errada.

O valor está em ler o estado presente: o sono, a tensão que o corpo carrega, o pescoço, o que se foi somando. Não em reconstruir a fagulha de há três anos. A dor que dura é um sistema a manter-se ligado, não um osso fora do sítio à espera de encaixe.

Quem faz essa leitura completa não é uma só pessoa nem uma só especialidade. Conforme o que o teu filme mostrar — o sono, o estado, uma história de pescoço, o desgaste dos dentes — a frente certa pode ser o médico dentista, o sono, a fisioterapia ou outra. O que interessa é ser bem lido primeiro, com as perguntas certas, em vez de comprar a promessa do culpado único.

Perguntas frequentes

Se sou mais sensível à dor, vou ter dor na mandíbula?

Não necessariamente. Este estudo mostrou que a sensibilidade à dor prevê quem vai começar a ter dor de forma modesta — aumentos pequenos, de 12 a 24%. Está longe de ser um destino. E vários dos sinais nem passaram no teste estatístico mais exigente.

Descobrir o que começou a dor resolve o problema?

Nem sempre. O estudo sugere que o que faz a dor começar e o que a faz durar são processos diferentes. Nos casos que se arrastam, grande parte do problema é o que se foi somando depois — não a fagulha inicial. Por isso vale mais ler o estado presente do que reconstruir a causa do primeiro dia.

O sistema de alerta do corpo (tensão, coração acelerado) causa a dor na mandíbula?

Este estudo, que mediu pessoas antes de terem dor, encontrou quase nenhum poder de previsão nessas medidas. Elas aparecem desreguladas em quem já sofre há anos, mas isso parece ser mais consequência da dor instalada do que a sua origem.

Referências

  1. Greenspan JD, Slade GD, Bair E, Dubner R, Fillingim RB, Ohrbach R, Knott C, Diatchenko L, Liu Q, Maixner W. Pain Sensitivity and Autonomic Factors Associated With Development of TMD: The OPPERA Prospective Cohort Study. J Pain 2013;14(12 Suppl 2):T63-T74. doi:10.1016/j.jpain.2013.06.007 (PMID: 24275224)